Uma breve reflexão sobre a história das mulheres no Brasil favorece a compreensão de seu processo de subjetivação, revelando como tem sido sua presença e ação. Isso justifica-se também pela afinidade e conexão que as historiadoras brasileiras mantêm com as idéias das pesquisadoras, anteriormente mencionadas, pela especificidade da formação social brasileira e pelos questionamentos próprios apresentados pelas mulheres.
As reflexões de Hahner (1981) e Del Priore (1988) são muito oportunas para se avaliar como tem sido construída a história das mulheres no Brasil. Hanner afirma que as mulheres precisam ser estudadas nos seus próprios termos, à luz das atividades que executam e das posições que ocupam em suas próprias sociedades. Justifica a importância de se adotar novos pressupostos na participação da mulher na História e “vê essa História como o estudo de sua experiência de vida, atividades, valores, funções, problemas comuns e percepções como mudaram no tempo entre diversos povos, em diferentes lugares, enquanto estudados de uma perspectiva feminina”(Hanner, 1981, p.16). Concentrando-se na “outra metade da humanidade”, “esse tipo de registro histórico pode ajudar-nos a ver como a sociedade funciona, como o poder e os papéis são distribuídos, como operam os mecanismos de controle social, quais são as pré-condições para mudanças sociais, quais são as experiências individuais comuns e quais as diferentes baseadas no
sexo, raça e classe. (Idem, p. 23).
A outra historiadora, Del Priore, considera que escrever uma história da mulher brasileira “significa abandonar as polarizações e deixar emergir a memória de tensões entre os papéis masculinos e femininos, vislumbrando além de seus conflitos e complementaridades o tecido mesmo da narrativa” (Del Priore, 1988, p.11). A autora, reconhecendo as contribuições dos avanços historiográficos, dos últimos dez anos, advoga que “a dialética, sempre utilizada, da dominação masculina versus opressão feminina, deve ser evitada por sua circularidade e substituída pela análise das mediações, no tempo e no espaço, através das quais qualquer dominação se exerce” (Idem, p. 13). Além de compartilhar do movimento internacional de resgate da presença da mulher na História, referida autora julga de grande relevância o compromisso de fazer a história daquela outra metade que milenarmente permaneceu desconhecida. Admite, assim, que o avanço dos estudos sobre a mulher se deve, entre os outros fatores anteriormente já mencionados, à sua participação nas diferentes instâncias e diversas áreas do conhecimento. Concebe que a história das mulheres não é só delas, é também aquela da família, da criança, do trabalho, da mídia, da literatura e das suas imagens frente à sociedade. Del Priore vê a história da mulher como sendo “uma história de complementaridades sexuais, onde se interpenetram práticas sociais, discursos e representações do universo feminino como uma trama, intriga e teia” (Idem, ibidem). Em termos do poder, referida autora afirma que melhor que procurar investigar a possibilidade de as mulheres exercerem o poder é tentar “decodificar que poderes informais e estratégias elas detinham por trás da ficção do poder masculino, e como se articulavam a sua subordinação e resistência” (idem, ibidem), ou seja, qual o espaço que elas se apropriaram para exercer seus contrapoderes. Considera que não é tão relevante fazer a história das mulheres somente em termos da saga de heroínas ou de mártires, “mas sim de enfocar as mulheres através das tensões e das contradições que se estabeleceram em diferentes épocas, entre elas e seu tempo, entre elas e as sociedades nas quais estavam inseridas” (Del Priore, 1997, p.9).
Em resposta à indagação sobre para que serve a história das mulheres, responde: simplesmente para fazê-las existir, viver e ser. Do ponto de vista da História das Mulheres no Brasil, talvez se
possa afirmar que ela existe e que está sendo consolidada, o que é atestado pela produção feminina neste campo do conhecimento. Questões sobre trabalho, sexualidade, maternidade, violência doméstica, participação da mulher na ciência, na literatura, no magistério e na vida religiosa, têm sido motivo de inúmeros estudos e pesquisas, muitos dos quais integram atualmente o livro organizado por Del Priore sobre esse assunto.
Trecho do artigo Mulher, poder e subjetividade
Autor: Maria Isolda Castelo Branco Bezerra de Menezes